16/05/2012

Blown away

Uns minutos de som. Uma dor incontrolável. O corpo rígido. O não saber o que fazer. O virar-me para baixo. O esconder-me na cama. A boca seca. O pedido de perdão. As consequências. O despertar. A decisão. O tempo. O adeus. O tentar. O cair de joelhos. O implorar. O ter que seguir em frente e ficar para trás. E ver-te caminhar. O perder de tudo. O choro incontrolável. A rigidez nos movimentos. O tentar reactivar. "O que faço?" Não sabia. Deixei-te ir. A casa vazia. O fugir de casa. O guardar tudo. O arrancar do pulso a tatuagem. O não conseguir arrancar mais nada. O tirar a roupa do corpo. Pesada. Tua. Um resto de ti. Um armário todo de ti. Uma casa de ti. A dúvida. As perguntas. Os pensamentos. As teorias. O pôr-me nos teus sapatos. Nos vossos sapatos. Nos meus sapatos. Nos sapatos deles. O culpar. O não culpar. O ignorar. O perder o que tu eras. Perder o teu crescer. O ficar para trás. Preso. O melhorar. O ganhar força. Na nova fase. Trabalhar. Bater com a cabeça. Precisar de ti. Precisar cada dia mais de ti. Mas continuar. Não saber de ti. Por ti. Por ninguém. O contarem-me. O não fazer sentido. E a distância. Ficar para trás. O ver-te. O ver-vos. O reactivar. A recaída. O peso. O choro. O pânico. A repetição. A explosão. O arrependimento. O perceber-te. O perceber-vos. O ter que perceber. O deixar-te ir. O ficar sozinho. A dor. E por fim, a tentativa de paz.

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04/04/2012

Em hipoxia

A minha fragilidade é esta. É fruto da minha história. É sangue das minhas mãos. A minha tirania, o meu ódio, o meu "deixar ir", o meu não me esquecer. O meu não me passar. Fica tudo lá dentro guardado. Como uma mão que aperta o coração, conta até três, aperta-o, arranca-o. Parte-o. Arrepende-se. É o veneno que me deixaram nas veias. Sai. Em jacto. Único. Numa lágrima solitária. Não me perguntes o que fazer. Fazes-me engolir em seco. Está nos genes. Está-me nos genes. Passou para mim. Pelos genes. pelo sangue. Pelo nome. Chama-me o que quiseres. Mas o sentimento não é só meu. É nosso. É o que eu sinto. É o que as minhas mãos vazias sentem. Os meus olhos sentem. Os meus músculos. Sem oxigénio não somos nada. Em hipoxia ficamos. Pum, pum, pum. Aperta. Arranca. Parte. Arrepende-me. Tira-me o veneno das veias. Não me peças para ter calma. Eu não sou como tu. Sabes bem que não sou. Disse-te desde o dia um. A minha fragilidade é esta. É fruto da minha história. É fruto do caminho de escolhas, ou tentativas, até chegar a hoje. É uma mapa rasgado. É a fúria. É o ar. O ar que me tiraram. Hipoxia. É um aperto no tórax. É uma ansiedade constante. E é um rebentar, por dentro, por palavras, por lágrimas. Sozinho. Nestas quatro paredes. A ver tudo a ir embora. Não é a dormir. Não é a mentir. O pó que se esconde debaixo da cama, fica lá se não for limpo. Não evapora. Não podemos ignorar as variáveis. Esquecer. Colocar no mesmo prato da balança. Hipoxia. Inquietação; desassossego. É o medo. O medo do presente. O medo do futuro. O medo de falhar. O medo de vos falhar. Porque o medo de perder, já o perdi. Por mais que estejamos habituados a esta fragilidade. Ao sangue das nossas mãos. À tirania, ao ódio, ao não se esquecer, ao guardar tudo. Por mais que daqui a uns tempos possas achar que está tudo bem, tudo calmo. Não ajuda, não me ajuda, aqui e agora. E assim deito-me. Em hipoxia. Acendo a luz, apago, acendo. Não sei se sou mais frágil no escuro ou na claridade. Aperto-me o coração, conto até três, quatro... no dia um, dia dois, três, no dia quatro!... e arranco-o! Em hipoxia!

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18/03/2012

Florbela

"Apeles,

Desiludi-te, não fui o que tu querias de mim, e quando tentei, fracassei, mais uma vez. Mas sabes que sou assim, uma poeta, e ser poeta é ter fome, é ter sede de Infinito! É ter tanta fome, meu irmão, tanta vontade de ser aquilo que esperavas de mim, um sonho teu, que poderá se transformar num sonho meu, "uma mulher casada", serei isso Apeles! Ouviste-me a tentar, meu irmão, quando fazia amor com o meu marido, senti-te. Senti-te do teu lado da porta, e ouvi o teu choro atravessar paredes. O teu cigarro queimou-me a pele. E sabes tão bem como gosto do cheiro. Meu Amor! Meu Amante! Meu Amigo! Meu irmão. Louco por aviões. Perguntei-te tantas vezes, o que vês de tão especial neles? Ontem sonhei contigo outra vez, que chegavas dessa viagem louca onde te meteste, contente, vivo. Contaste-me a história, do teu amor, foste ter com ela, Apeles. Foste ter com ela. Caíram folhas, caiu neve. Acordei e escrevi "Beija-me as mãos, Amor, devagarinho... Como se os dois nascêssemos irmãos, Aves, cantando, ao sol, no mesmo ninho..." Rasguei as páginas,arrumei as malas e corri. Ele tentou-me impedir, Apeles. Sabia que o faria. As páginas já alguém limpou. As minhas lágrimas, ficam. Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida. Meus olhos andam cegos de te ver! Volta, meu irmão. Fui ver o pai, o pai que te renegou, mas nosso pai. Disse-me "quando finalmente a desgraça te bate à porta, é que não tens nada para lhe dizer." Não sabe ele, Apeles, sabes tu... tu que já aqui não estás. Tu, meu irmão, a quem pedi, a quem roguei, pela alma da nossa mãe, mas tu partiste, meu irmão. Seguiste os teus sonhos, e eu deixei-te sonhar. Quando soube, corri, corri e abracei-te em pleno mar, as ondas fizeram-me condensar o mundo num só grito! Chorei, meu irmão, imaginei-te, a minha mão na tua face, a minha poesia nas tuas mãos, as minhas palavras na tua boca. Deixei de tentar escrever. Um fantasma disse que o preço era deixar de escrever. O meu peso de mulher casada, sozinha, viúva de irmão, caiu sobre o poço, gritei, e apanharam-me. Não me deixaram ir ter contigo, e voltei à minha angustia. Decidi escrever-te, em prosa, Apeles. Decidi relembrar-te, inspirar-te, tu que me lias como ninguém. Agora alguém vai te ler, através das minhas palavras. Não me quero despedir, "que importa o que está para além? Seja o que for será melhor que o mundo e que a vida". Não me despeço irmão. Vou finalmente ter contigo. Já tentei duas vezes... à terceira é de vez!
"Amo-te tanto ! E nunca te beijei... E nesse beijo, Amor, que eu te não dei Guardo os versos mais lindos que te fiz."

Um beijo,
Florbela"

[Inspirado no filme Florbela, aconselho a TODOS! Uma verdadeira obra, um magnífico trabalho de actriz, uma história e filme fantástico, em honra de uma grande mulher!]

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