"Apeles,
Desiludi-te, não fui o que tu querias de mim, e quando tentei, fracassei, mais uma vez. Mas sabes que sou assim, uma poeta, e ser poeta
é ter fome, é ter sede de Infinito! É ter tanta fome, meu irmão, tanta vontade de ser aquilo que esperavas de mim, um sonho teu, que poderá se transformar num sonho meu, "
uma mulher casada", serei isso Apeles! Ouviste-me a tentar, meu irmão, quando fazia amor com o meu marido, senti-te. Senti-te do teu lado da porta, e ouvi o teu choro atravessar paredes. O teu cigarro queimou-me a pele. E sabes tão bem como gosto do cheiro.
Meu Amor! Meu Amante! Meu Amigo! Meu irmão. Louco por aviões. Perguntei-te tantas vezes, o que vês de tão especial neles? Ontem sonhei contigo outra vez, que chegavas dessa viagem louca onde te meteste, contente, vivo. Contaste-me a história, do teu amor, foste ter com ela, Apeles. Foste ter com ela. Caíram folhas, caiu neve. Acordei e escrevi "
Beija-me as mãos, Amor, devagarinho... Como se os dois nascêssemos irmãos, Aves, cantando, ao sol, no mesmo ninho..." Rasguei as páginas,arrumei as malas e corri. Ele tentou-me impedir, Apeles. Sabia que o faria. As páginas já alguém limpou. As minhas lágrimas, ficam.
Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida. Meus olhos andam cegos de te ver! Volta, meu irmão. Fui ver o pai, o pai que te renegou, mas nosso pai. Disse-me
"quando finalmente a desgraça te bate à porta, é que não tens nada para lhe dizer." Não sabe ele, Apeles, sabes tu... tu que já aqui não estás. Tu, meu irmão, a quem pedi, a quem roguei, pela alma da nossa mãe, mas tu partiste, meu irmão. Seguiste os teus sonhos, e eu deixei-te sonhar. Quando soube, corri, corri e abracei-te em pleno mar, as ondas fizeram-me
condensar o mundo num só grito! Chorei, meu irmão, imaginei-te, a minha mão na tua face, a minha poesia nas tuas mãos, as minhas palavras na tua boca. Deixei de tentar escrever.
Um fantasma disse que o preço era deixar de escrever. O meu peso de mulher casada, sozinha, viúva de irmão, caiu sobre o poço, gritei, e apanharam-me. Não me deixaram ir ter contigo, e voltei à minha angustia. Decidi escrever-te, em prosa, Apeles. Decidi relembrar-te, inspirar-te, tu que me lias como ninguém. Agora alguém vai te ler, através das minhas palavras. Não me quero despedir, "
que importa o que está para além? Seja o que for será melhor que o mundo e que a vida". Não me despeço irmão. Vou finalmente ter contigo. Já tentei duas vezes... à terceira é de vez!
"Amo-te tanto ! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz."
Um beijo,
Florbela"
[Inspirado no filme
Florbela, aconselho a TODOS! Uma verdadeira obra, um magnífico trabalho de actriz, uma história e filme fantástico, em honra de uma grande mulher!]
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