05/10/2010

Monólogo da revolta


(Actor ou actriz. De pé, sentado ou deitado. Preto, branco, crú, sincero! Sozinho, ou acompanhado. Num palco, à frente do público ou no centro do público. Não importa!)

A- "Ninguém acredita, todos pensam que é loucura, demência, necessidade de erotismo. Ninguém vê, ninguém sente, todos duvidam, denunciam, comentam, riem-se. Ninguém percebe, só eu. Nas horas de agonia, nos dias de pânico, nas lágrimas dos olhos, na falta das palavras que tardam a aparecer, na falta de noticias e carinho, demonstrações de afecto e sentimento. Já perguntaste várias vezes quando te esqueço, e a minha resposta foi sempre a mesma Não consigo. E volto a repetir-te, não consigo, mesmo que te afastes de mim para sempre, continues a tua vida como se nada fosse. Porque é disso mesmo que se trata, no fundo eu sou nada para ti e nada continuarei a ser. Pensas que tens muitos amigos, pessoas que te adoram, iludes-te! Tens no máximo pessoas que te desejam, tens pessoas que comentam coisas nas tuas costas, pessoas que nem de ti gostam… todos temos, é verdade. Mas um desses dias vais perceber que ninguém te ama da maneira que eu amo, e um dia vais dizer Não consigo. Não consegues viver com o peso na consciência que devias ter aproveitado, ao menos tentado preservar uma amizade, e não a deixares escapar por entre os teus dedos, dedos que todos apertam, dedos que todos beijam, menos eu, eu, o que mais deseja, o que mais os sente no ligeiro toque, no mais ligeiro movimento. Quem me dera que esse dia fosse hoje, assim já te teria esquecido sem remorso, e via-te caminhar pelos teus maus caminhos e más maneiras, maneiras que chegam a todo o lado sem qualquer esforço; porque chegas a qualquer lado só abrindo um sorriso, um sorriso que não abre para mim nas horas da minha dor, simplesmente porque tu não ligas, tu não te importas sequer que eu sofra, julgas que o meu sentimento é uma pedra que depois de se atirar ao mar desaparece, tal e qual como todos os outros, juntamente com todos os outros. Pensas que eu sou um peixe preso num aquário, basta jogá-lo ao mar e ele continua vivo. Mas ao mesmo tempo depois apareces, passados dias, apareces. Apareces e tentas-me levar pela mão de novo até o aquário (do qual eu afinal nunca tinha saído), e a pedra que jogaste ao mar é arrastada de volta pelas ondas, vivida e sofrida como sempre esteve. Quando é que vais perceber que o que sinto não é apenas uma pedra no teu sapato, quando é que vais – e vão – dar valor ao que eu sinto para ti, mesmo tu não merecendo, nunca, jamais! Não mereces metade, um quarto, um terço, nem a vigésima parte do todo que eu sinto por ti. Nem de mim, nem de ninguém.

Um dia quando tiveres a sofrer, lembra-te de mim! Esperemos que já estejas esquecida."

Fim.

(retirado de uma espécie de livro que escrevo quando dá inspiração. Faz parte da história dele, e originalmente não é um monólogo, mas imaginei ser, e resolvi partilhar porque é parte da minha escrita, e parte do meu teatro!)

6 comments.:

Lili disse...

Brilhante!

Nadia Mendes disse...

Deixas-me sem palavras! Absolutamente fantástico! Sabes que apenas quero a tua felicidade! Faz dessa a tua resolução no teu próximo ano (que começa depos de amanhã!)
Beijinhos em ti! Um abraço grande! (daqueles em que me pegas ao colo!)Com muita saudade!

Ireth Hollow disse...

À medida que ia lendo o monólogo, ia imaginando a representação do mesmo na minha cabeça. Digo-te, o efeito seria fantástico. Espero que este teu projecto continue :)

rummy_ disse...

acho que consegues que todos encontrem um bocadinho de si no que escreves. por isso estás de parabéns: por conseguires que quem está deste lado sinta.

Dalila Mendes disse...

Amadeu, está lindíssimo! Tu tens mm o dom da escrita. Na arte de escrever o palco é SEMPRE teu!!! ;) Vai em frente!;) E faço minhas as palavras da Nádia...

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