11/10/2010

(Teatro de) Amor e Ódio

(Dois actores andam pelo palco, nunca se cruzando...vão falando à medida que se movimentam com ritmo e determinação.)

A- Não tens a mínima noção, pois não? Quando acordas pensas no teu pequeno-almoço, na roupa que vais vestir, no teu primeiro xixi, no olhar à menina que espera todos os dias à mesma hora no banco do lado do metro. Pensas em lavar os dentes para manter o teu sorriso branco e encantador. Pensas que dormiste pouco, e mal sonhaste, e parece que foi há cinco minutos que fechaste os olhos, depois de, lá está, olhares-te ao espelho pela última vez e veres que mesmo vestido com o pijama mais ridículo do mercado oferecido pela tua mãe num natal longínquo, apresentas um raro bom aspecto a todas as horas, mas mesmo assim insistes em perguntar se estás bem e ninguém responde, porque o espelho é a tua imagem, e só a tua imagem te importa. A tua e a de todos aquelas que levas para cama num piscar de olhos tão nítido que até o ceguinho a pedir esmola no metro sente o chão a estremecer. Depois chegas à faculdade com um olhar cagão, despes o casaco, e esperas que todos te admirem só porque bebes o café com a mão esquerda, fazes limpeza facial todas as manhãs, e foste para a cama com metade da população. Mas mesmo assim, achas que é pouco! Tudo parece tão pouco ao pé da tua importância, não é?

B- Foi a semana passada que chegaste, e eu revirei os olhos. Foi ontem que chegaste ao pé do teu namorado, deste-lhe um beijo, eu revirei os olhos. Desde quando é que namoras? Ainda no dia anterior estavas tão bem sozinha, com a tua mini-saia azul, e eu vi-te passar. Toquei-te na perna a meio da faculdade, sem querer, reclamaste! Não tens a mínima noção, pois não? Se trazes essa mini-saia, é para seres tocada. E quando os outros te tocam, limitas a dar uns guinchinhos orgásmicos de alegria! Mas eu, oh, as minhas mãos são pecado nas tuas pernas. E eu rio-me, reviro os olhos. Porque quando estás bebada, quando estás na minha cama, longe do teu namorado, aí toco debaixo da mini-saia, e não reclamas.

A- Quando me telefonas, já sei para que é... mas acabo por não resistir, apanhar uma bebedeira, envolver-me contigo. Apesar de te odiar... e dizem eles que ódio é uma palavra muito forte.

B- E depois... apareces à minha porta, toda feliz! E no fundo vejo que quero que caias nos meus braços, que te amo...

A- E depois... depois era capaz de tudo para ficar contigo. No entanto, no entanto jogo a estas emoções, como se te odiasse. Porque é mais fácil odiar-te. É mais fácil ficar bêbada, cair nos teus braços, amar-te....

A e B - ... de alguma maneira!

B- Na verdade é mais fácil estares bêbada. Ao menos assim sei que me queres...

A- Ao menos assim queres-me...

(Param no centro do palco, a olhar um para o outro)

A e B - ... de alguma maneira!

(Fazem uma coreografia juntos, simulando sexo. E acabam de costas um para o outro.)


Fim.

5 comments.:

Dalila Mendes disse...

Amadeu,mais uma pequena "maravilha" na tua escrita! De dia para dia surpreendes os teus leitores assíduos. Continua... NUNCA desistas de escrever, pk esse é um dos teus melhores dons!;) Bjinhoooosssss

Carolina Fonseca disse...

Adorei padrinho!
és tu que escreves?! :O

Lili disse...

muito bom!
*

Amadeu disse...

obrigado *

Sim afilhada, sou eu :D

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