29/12/2010

Tic Tac

Vamos fazer assim. Fecha os olhos, respira fundo, e começa a ler, sem pressas, ouve só os barulhos que te acompanham. Fecha os olhos. Ouve o teu relógio, o coração, o vento e a chuva lá fora ou simplesmente aquela música que te toca sempre lá dentro, a música que parece que foi escrita para ti, a música apropriada para aquele momento, aquele momento que choras sozinha nos lençóis, todos os dias. A tua playlist, a tua companheira. Se te apetecer chorar: chora! mas chora até ser a última vez que choras este ano. Não podes ficar agarrada a esse sentimento de solidão, essa garra que te aperta, esmiuça, destrói, esse sentimento que vais acabar sozinha, e ninguém se vai lembrar de ti, que não és boa o suficiente, que não sabes o suficiente, que não consegues o que queres, que não vives, que não importas. Porque no relógio da vida todos importamos; no relógio da vida não acabamos sozinhos. Se não consegues contar com os outros, com aqueles a quem chamas amigos; se não consegues chegar ao pé deles, abraçá-los, chorar nos seus ombros; se eles não te abrem os braços à tua espera, agarra-te a ti. Escreve. Escreve-te. Mas não deites os papeis no lixo, não os escondas até ficarem amarelos com o tempo. Guarda-os, e lê-os, acredita neles. Acredita que o tempo cura tudo, e que um dia vais ser feliz. Conta contigo. Agarra-te. Amarra-te. Porque tu, tu de certeza que não te vais abandonar. É contigo que vais continuar. Outros passam, cria memórias, cria laços, descobre-os, descobre-te. Agarra-te . Amarra-te. Ele vai aparecer, outro, não aquele por quem sofres há tanto tempo. Ele. Eles. Ele. Aquele que sonhas, que te tire a mágoa. Aquele que não acreditas existir, porque isso seria demasiado clichê. Demasiado banal. Tu és tudo menos clichê e banal. Agarra-te. Amarra-te. A alguém, a alguma coisa, a músicas, memórias, palavras soltas, a uma folha amarela da tua infância, a um blog, a um livro. Agarra-te. Vive. Até esqueceres, deixares de ouvir o Tic Tac, até as lágrimas deixarem de criar lacunas nos teus olhos. Sorrires. Rires. Seres feliz. Porque és mais do que pensas; vales mais do que pensas. Um dia vais conseguir aquilo que queres ser e não sabes. Vais fazer o que sonhas, e não te lembras. Podes acreditar que estás destinada para isso. É lame. Mas agarra-te. Amarra-te. Ao mais ridículo possivel. Aquele rosto que te acompanha. Aquele amigo especial, que apesar de às vezes longe, está sempre lá para ti. Agarra quem importa. Quem merece. Irás encontrar aquilo que procuras. Não sabes o que é? O que procuras és tu. É aquilo que és, e dizem-te, vezes sem conta que és, e tu não acreditas. Porque por alguma razão estás agarrada a isso. Amarrada. Desprende-te. Sorri. Ri. Vive. Para além de estares nos olhos, nas memórias dos outros; Tens de estar na tua própria existência. Faz isso. Pára de chorar, agora. Agarra-te. E quando o fim chegar, ouvirás o Tic Tac, sentirás o Pum Pum, e vais ver que afinal: foste feliz!

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28/12/2010

Sensações


Chamam a esta sensação: solidão. Sentar-se num canto frio, tremer, ouvir a chuva cair, deixar as conversas passarem pela cabeça, uma atrás da outra, e ignorar. Sentir-se cansado, e adormecer. Chamam a esta sensação; tristeza. A falta de alguém, o sofrer, o tremer, o fechar os olhos, o chorar sem qualquer razão e com todas as razões. Chamam a esta sensação: sonho. Com prédios baixos, onde chove, mas onde acontecem momentos, onde guardamos memórias. Chamam a esta sensação: vontade. Vontade de sair dali, morar sozinho, crescer. Quando chove, esperamos pelo sol, sozinhos, mas não importa. Faz parte do crescimento. Chamam esta sensação: amor. Sentir a presença, o cheiro, abraçar o vazio, odiar estar longe, revoltar-se interiormente. Chamam esta sensação de desinteresse, fechar-se, não fazer nada, dormir até às três da tarde, procrastinar, porque tudo é (bem) mais interessante do que fazer o que temos a fazer. Chamam a esta insatisfação, de procura do que é felicidade. Só estar bem onde eu não estou. Chamam a esta sensação: medo. Medo de palhaços, de perder, de não ser ninguém, de acabar e não ter feito nada que marque, que deixe o meu nome. Chamam a esta sensação: saudade, estar longe, esperar, reencontrar, abraçar, chorar por dentro... chorar por fora. Chamam esta sensação de amizade, o preocupar, o abraçar, o recordar, o rir, o chorar. Chamam a estas sensação de dor: momentos de solidão, tristeza, vontade, amor, desinteresse, insatisfação, medo.

Eu chamo a esta sensação: Espera. Esperar pelo fim do desinteresse, da insatisfação, do medo. Esperar pelo reencontro, pela amizade, pelo amor, pelo fim da saudade. Eu chamo a esta sensação: vida!

Eu chamo a esta sensação pelo nome: Sensação. Eu chamo a esta sensação: o teu nome. Eu chamo pelo teatro. Eu chamo por 2011. Eu chamo por ti.

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25/12/2010

Mensagem de Natal

Sem mais demoras, não tive tempo de deixar uma mensagem personalizada a todos, mas aqui vão os meus mais sinceros votos de Feliz Natal para todos os leitores do meu blog. =)

Obrigado por todos os bons momentos, cada vez que comentam o blog, carregam like no facebook, falam sobre a minha escrita, ou simplesmente aparecem neste meu cantinho.

Porque sem vocês não havia "I am", I said, porque ninguem estaria aqui para ler.

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21/12/2010

Home for Christmas


O cheiro característico, a árvore de Natal no sítio, onde ele próprio deixou um elemento decorativo que trouxe consigo. Era naquela sala que os sonhos aconteciam: as prendas de Natal, o entusiasmo e ansiedade. Tolos cantam Santa Claus is coming to town, e ele ainda não tinha escrito a sua carta. Este ano havia algo diferente, não sabia pelo que desejar, achou-se demasiado velho para brincar às surpresas, sentou-se ao pé da árvore a pensar o que realmente queria. Imaginou. Imaginou as mãos nas suas, imaginou o cheiro do perfume, o sorriso, a gargalhada, as cócegas, o corpo a tremer, sentiu-se derreter, e imaginou: embrulhado com efeitos natalícios, ali, o seu presente! Desembrulhou com ansiedade e saudade, estremeceu, e abraçou a sua prenda, recordando todos os momentos, todos os suspiros, beijou-a, e levou-a consigo, juntos no primeiro Natal, juntos num reencontro único. Depois, quando finalmente conseguiu abrir os olhos, estava sozinho junto à árvore de Natal, outra vez. Sorriu. Não é à toa que tolos cantam All I want for Christmas is you!

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08/12/2010

"I'm on my way to believing"


Viagem pelos posts do blog, baseado na música The Only Exception

Quantos anos sofreu nas sombras de alguém procurando nas entrelinhas alguma possibilidade de conquista, de negação por parte do outro, mais que uma amizade à superfície, tentou ver o núcleo, tentou chegar lá várias vezes, e várias vezes na sua imaginação tocava os lábios e estremecia; depois tentava esquecer, e voltava sempre à mesma base, ia contra a parede na rotina, contra a parede repetidamente! quando finalmente se beijavam, ou se mostrava afecto. No fundo era tudo uma espécie de esquema para se manter agarrado nas sombras. Mas sabia que não faziam por mal; era só a necessidade do outro de ter alguém à sua sombra. Tentou encontrar outra pessoa, esquecer os olhos brilhantes, o sorriso contagiante, mas acabava por pensar sempre no passado, e na falta que lhe fazia.. E deixou de acreditar no amor, sentou-se no chão e entrou num Monológo da Revolta. Percebeu que nenhum daqueles quatro ou cinco anos valeram a pena, não valeram o risco. Caminhou pela casa, e foi no Espelho que viu o seu reflexo, disse adeus às inseguranças e devaneios, aos penhascos certeiros, a tudo o que ficou por dizer e tudo o que foi dito.

Correu para o quarto, ficou deitado na cama, ansioso. A chuva, na cama, ao acordar, ao adormecer, no palco improvisado, na vida... Estava ansioso e não sabia porquê! Viu a luz ao fundo do túnel algumas vezes, mas entre caminhos trocados e complicações, acabava por virar à esquerda e nunca chegar ao caminho pretendido, perdido em mapas que não o levavam a lado nenhum. No entanto decidiu esperar apenas mais uns dias de desespero e solidão. Esses sentimentos... que no fim... voltam sempre.. no ciclo da vida!.

Por um lado estava contente, tinha a certeza que tinha deixado de ser a sombra, e sabia que não voltaria a esse sentimento com aquela pessoa. Mas no entanto, continuava a não ser imune a toda a dor de estar sozinho, a não ser imune a todos esses sonhos destrutivos. E decidiu não voltar a tentar. Pensou, assim, nunca mais ser capaz de escrever sobre o amor.

No meio do seu estado de inércia, sentado no palco, sonhou, murmurou "Faz o que quiseres, vem de onde vieres, Eu faço-me aparecer, mas aparece!!" O seu corpo estava estático, como se estivesse preso à cadeira da solidão, e no frio do palco encontrou outras mãos. No seu nariz: o cheiro. Nos seus ouvidos: Oh Holy Night! As suas mãos, lábios, presença, virou vício. Mordeu-lhe, estremeceram.. E ele soube que, naquele momento, era capaz de acreditar outra vez. No meio do palco, onde o seu cheiro ficou gravado nas tábuas, num mundo de arsénio, encontrou o seu antídoto. Ninguém é de ninguém. Mas tinha possivelmente encontrado a sua única excepção.

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02/12/2010

GFAJ-1 num Mundo de Arsénio


Silêncio por toda a parte. O caos. O fim. A altura que toda a Humanidade ansiava, temia, o final dos nossos dias, a confusão, o último adeus aqueles que amamos, a única oportunidade de encontrar quem nos vai acompanhar até o ultimo segundo, a pessoa com quem vamos dar o último suspiro, a quem vamos dizer 'fazes-me feliz', 'fizeste-me feliz', e palavras que valem muito mais que amo-te, muito mais que Quero-te; o último toque que mostra tudo o que às vezes nós nem sabemos. Acabaram todos por não temer mais esse fim. Porque no fundo, a certa altura, todos sabiam que iam para lá, todos. Namorados, amigos, familiares, inimigos, conhecidos, desconhecidos, ! Juntos. Mais unidos do que nunca no fim. Olha, aquele não teve tempo de se despedir. Aquele acabou de ganhar o Euromilhões, e foi viajar para longe, e morreu perto de quem nunca viu na vida. E aqueles os dois, ainda a conhecer-se, beijaram-se numa mistura de felicidade e choro, envenenados também um pelo outro, combinaram encontrar-se depois. Depois do que vem. Depois do caos. Do fim. Depois do silêncio.

Nesse mundo destruído, quando o veneno chegou a todos, o nível elevado de arsénio, um composto historicamente conhecido por ser venenoso; consumiu todos... todos os seres vivos da terra, que ficaram privados dos seus elementos. Neste mundo final... apenas um sobreviveu! Apesar de com dificuldade, ele cresceu, aos poucos. E sorriu ao ver que tinha sido o único. Outrora chamaram-lhe GFAJ-1, a bactéria encontrada no lago Mono, outros chamaram-lhe a Alien, e foram procurá-lo noutros ambientes envenenados. Mas ela tinha ficado ali, naquele lago, até o fim. E no fim. Foi ela que sobreviveu. O fim, para ela, era o início. No lago ficou durante anos, À espera. E agora que estava livre, podia finalmente encontrar outros como ela, começar uma vida e, também, procurar aquilo que os humanos (mortos) um dia chamaram de felicidade.

(Baseado nas novas Descobertas da NASA sobre uma bactéria que se alimenta de arsénio)

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