20/01/2011

Permanent

"I wish I could make it go away"
As lágrimas automaticamente aparecem, a notícia; o corpo fica arrepiado, a fúria. Todos sabemos como é, todos ouvimos histórias, todos sabemos percentagens. E quando o inevitável acontece, quando ouvimos o veredicto do médico, choramos. A doença que afecta não só o próprio, mas a família, os amigos, os amigos dos amigos. A pouco e pouco tornamo-nos mais fracos, e os médicos dizem para nos despedirmos (quando há tempo para sabermos isso). Uns aguentam um mês, outros anos, outros conseguem livrar-se... mas só depois de sofrerem, e aquele momento fica guardado, para sempre. O medo que volta, o medo fica sempre. Quando se lembram que são poucos, poucos que conseguem, por uma espécie de milagre, curar-se. Choramos todos. Quando vemos casos na televisão, quando lemos histórias, quando vemos personagens fictícias a sofrer, choramos, arrepiamo-nos, mas nada é tão real como ter a doença no corpo, ou no corpo daqueles que amamos, daqueles que lutam por mais um dia, lutam com operações, lutam com dores, lutam com gritos silenciosos, com lágrimas, com o abraço, lutam o dia à dia, desistem do emprego, porque o emprego agora é aquele. O inimigo invisível. E a pessoa que o transporta torna-se dependente de todos, joga-se nos braços daquele que ama sabendo que não vai durar, mas mesmo assim conseguir ter esperança para lutar... por mais uns dias, ou durante anos, dois, quatro, cinco. O que vier. Lutar. Viver num inferno, ouvir uma boa notícia, e depois três más, e más, e piorar. Piorar e agarrar-se ao que temos, deixar momentos, pensar no que nos falta, quando ainda há a habilidade de pensar. Depois perdê-la. E todo o nosso ser depender daquele outro, da pessoa que nos acompanha desde o dia um. E deixar de saber que essa pessoa nos é tudo, sem ela, estaríamos sozinhos. Doentes. E sozinhos. No último momento. E quando somos vencidos, quando damos o último suspiro, em casa. Ou no hospital. Acabou os momentos de luta. Mas fica a marca. Os amigos, perdem as palavras. Não sabem o que dizer. Ficam ali parvos. Abraçam. Choram às escondidas porque querem dar força, não piorar a situação. No fim. Está a família reunida, não toda!, de novo, na hora do adeus. Os que foram deixam saudade, deixam lágrimas, e sabem, onde estiverem agora, que apesar de tudo, valeu a pena lutar. Os que ficam, choram a ausência. E têm de viver com ela. Continuam a lutar. Nunca param de lutar. É permanente. Fica os dias por dormir, as memórias sofridas, a presença, a voz pela casa, o cheiro nos livros, a roupa no armário, os retratos, os dias de luta, os dias de dependência. Continuam a lutar. Não para esquecer. Mas para viver. E conseguem, acabam por conseguir! Era demasiado injusto também não sobreviverem.
"Is this the moment where I look you in the eye?
Forgive my promise that you'll never see me cry!"

Dedicado a todos os que lutaram contra o cancro, estão a lutar, perderam alguém, ou são amigos de alguém que perdeu. Ficam aqui as minhas palavras de força.
(David Cook; dedicado ao irmão com cancro cerebral que entretanto já morreu. E uma dança com o tema do Cancro da mama So you think you can dance.)

4 comments.:

Dalila disse...

Muito bem escrito este teu "louvor" ao ppl doente k sofre, sofreu e/ou morreu com o cancro.
E, uma vez mais surprendes-me pela positiva! ;)
Este teu texto é triste, mas verdadeiro... :(e acontece a milhares de pessoas por esse mundo além. :( E nada se faz para arranjar cura... :(

À TUA amiga J. a minha maior simpatia...k estas horas de sofrimento passem rápido.

À MINHA amiga k partiu com essa "maldita" doença, após ano e meio de doença e sofrimento :( ... as minhas maiores saudades!! :(

SH disse...

É duro. E muda completamente a nossa vida, nada fica como antes quando lidamos com uma situação destas. Faz-nos lembrar que somos pequeninos e não temos nenhum poder.
É difícil ver alguém sofrer e não poder fazer nada.
É difícil esperar e é difícil quando o desfecho não é aquele pelo qual tanto lutámos.
Há que continuar a ter fé.

Amadeu disse...

Mãe, obrigado =) sei como foi dificil com a tua amiga, e sei como foi com a joana. Há que ter força apesar de tido.

SH, obrigado pelo teu testemunho. Muita força, as minhas palavras, forças, sentimentos, estão contigo e com todos os que passaram por esta situação.

Lili disse...

Está lindo Amadeu! Parabéns! às vezes é muito difícil colocar todo esse turbilhão de sentimentos que nos assombram em momentos como este, por escrito.
*bj

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