10/08/2011

A house is not a home

Os dedos pararam no cabelo por acariciar, e acabaram por abraçar o vazio. Quando ele tinha a certeza que sentira o cheiro ao perfume, que ouvira vozes entre as paredes vazias, o suspiro no meio da música triste, o sorriso na parede branca, a inspiração nas suas palavras. Sentiu-se sozinho por alguns segundos, até perceber que estava rodeado de pessoas. A música continuava a tocar, numa repetição frenética, música que lhe trazia à cabeça momentos passados, e agora eram só letras numa pauta triste, mobília velha de uma casa que tinha caído e agora estava a ser construída, como deve ser, pouco a pouco. Imaginou de novo os pilares, o rés-do-chão, todo o cimento até conseguirem construir aquela casa, andar a andar, até o dia em que se encontrava. Por pouco não deixou cair uma lágrima, mas estava rodeado de gente, e tinha vergonha! Imaginou a hipótese remota de alguma vez tudo aquilo acabar, a casa a desmoronar e ele, já velho, não ter forças para recomeçar. Imaginou-se a meio da terra, das cinzas, debaixo das escadas destruídas, escadas essas que não subira sozinho, mas com ajuda. E no frio que iria passar. Frio esse que agora entrava por uma janela aberta nesta casa que era a vida, resolveu ir fechar e voltar à realidade. Perguntou "estás aí?" mas não obteve resposta. Sabia que não era ainda altura. Mas parte de si ecoava pelas paredes da casa, fazendo-a vibrar. Nessa vibração deixou-se embalar e sorriu. Foi ao frigorífico buscar morangos, e um gelado de limão. Comeu uma pizza logo de seguida. Bebeu uma sangria. Subiu as escadas a custo; agora que estava sozinho, as escadas pareciam tão mais difíceis de subir, ainda mais sabendo que quando chegasse ao último andar, não teria ninguém à sua espera, mas mesmo assim levou as vibrações consigo, as vibrações que lhe faziam continuar, o perfume, a foto na mesa da cabeceira. E entrou no primeiro quarto. Não era o quarto que esperava encontrar mas jogou-se na cama e fechou os olhos. Leu um papel rasgado com metáforas e recordações, deixou cair uma lágrima, na parte de trás do papel amarelado viu uma foto, e sorriu. Acordou noutro dia, teve medo de se virar na cama e não ver ninguém; sentiu o cheiro ao perfume, ouviu as vozes à noite, seguido de um suspiro, perguntou "Estás aí?" e sentiu um sorriso. Estava noutro quarto; numa conchinha. Acariciou o cabelo. Estava em casa.

3 comments.:

Rute disse...

Escrevi isto há alguns anos, e achei por bem partilhar contigo, porque este teu texto me fez lembrar disto...

"Existia uma pequena casa feita de cimento e tijolo. Por fora, parecia pacata e relativamente normal. Não tinha a arquitectura mais moderna, inovadora e bonita, mas não era má de todo. Sorria aos compradores, talvez por querer que a fechadura fosse utilizada quotidianamente. A porta, porém, era forte, parecia ser à prova de bala... E o algeroz era interior, o escoamento de águas não se dava pelo exterior; a água infiltrava-se lentamente pelas paredes e apodrecia os materiais. Agora, por dentro, nunca ninguém imaginaria que esta modesta casa tinha pilares tão fortes. Era escura, as janelas só tinham visibilidade para o lado de fora. Não haviam vestígios de utilização, só existiam partes um pouco gastas, quiçá, devido a agentes erosivos. Não havia um ambiente normal nesta pequena casa, não parecia normal. O chão estava coberto de pó, sombras, memórias. Algo dava a entender que estava danificada. Ninguém a queria comprar, o preço era demasiado alto para a casa que era. Talvez porque eu era essa casa."

Adorei o teu texto,

Beijinho,
Rute

P.S.: Mal li o título do texto pensei "Pois não... porque a FFUL é a minha casa."

Amadeu disse...

Sim senhora rute, uma mulher de muitos talentos (cantar nao é um deles ah ah :p estou a brincar!) obrigado pelo comentario.

Beijinho.

PS- Sim, casa FFUL <3

AB disse...

Casa é onde o coração está <3 ADORO :')

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