Pegou nas mãos do seu irmão e estremeceu, havia algo de negro nelas, uma película de carvão que se espalhava da ponta do dedo mindinho até o fim da palma da mão. Olhou-o nos olhos, beijou-lhe no rosto e as suas lágrimas se fundiram. Largou-lhe as mãos e ficaram uns momentos em silêncio. -
Um dia serás grande. Os teus sonhos são verdadeiros! O irmão mais novo não ouviu, ou não ligou, desde pequeno que ouvia promessas vazias e continuava ali,
azul, quando todos os outros já tinham mudado de cor. Mas mesmo assim deixou escapar um sorriso pequeno, e tentou esfregar as mãos negras de trabalho e desconforto. Entregou o anel que o velho lhe tinha entregue e virou costas. Aquele anel não lhe pertencia,
ainda. Às vezes gostava de caminhar sozinho. Na escuridão. As árvores e o vento pareciam que se juntavam nas melodias dele, e quando ele finalmente chegava ao mar confundia-se com o azul das ondas e ficava lá a boiar, até que mais tarde alguém ia busca-lo, lavava-lhe as mãos, e o levava de volta até a cabana com algumas palavras agressivas
Não deves ir para o mar sozinho! Nunca! Esfregou as mãos negras do corpo azul, mas a escuridão ficou intacta. Apenas com a marca de um anel no centro da palma da mão. Anel oferecido pelo seu mestre.
Uma responsabilidade! disseram todos os familiares. Agora cuspia essas duas palavras que repetiam na sua cabeça de aprendiz. E olhava com desdém para a responsabilidade marcada na palma. Claramente não fora feito para aquela tarefa. As suas mãos continuavam negras. O seu corpo e mente, continuavam azuis. Quando chegou à cabana, a última estrela do céu já tinha ido dormir, e isso significava que todo o reino tinha de se deitar. Viu vizinhos, viu crianças, viu alegria, viu a dor. Tudo a esconder-se na escuridão das cabanas. Mas ele, ele ficou à porta, a sua escuridão. Ele trazia consigo, gravada na sua mão.
São horas de dormir, pequeno irmão! Pequeno irmão,
um dia serás grande,
que responsabilidade! As palavras faziam eco nas montanhas, criava puzzles como se de uma história se tratasse. Um dia ia escrever as suas histórias, iria ignorar os ensinamentos da aldeia, subir as montanhas, e atravessá-las a pente fino, deixaria de ser o
pequeno irmão! -
Hoje não me apetece dormir!; disse abandonando a cabana com as palavras "
É proibido" atrás de si.
O choro da sua irmã acordou a aldeia, do vazio surgiu a dor. Não foi preciso correr. Ninguém se atrevia a abandonar a aldeia depois da última estrela cair. Ninguém; só ele! Ele cuja escuridão das mãos se alastrou pelo corpo, a sua côr azul escureceu. Ele que procuraram dias a fio, mas sem sucesso, porque assim que a última estrela caía tinham que voltar a casa. Ele, a quem chamaram, um dia,
Noite!
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