
Damos dois passos para a frente, e cinco passos para trás. Na minha agenda escrevo coisas que parecem amanhã, mas ainda dois meses nos esperam. Na minha cabeça temo coisas que parecem de ontem, e ainda faltam pelo menos oito meses. Ao passear contigo falamos de coisas, que podiam acontecer hoje, mas vão precisar de dez meses, um ano, três anos de espera para conseguirmos todos fugir. Nos cafés, onde devemos falar de coisas inúteis que passam na televisão, que acontecem nas nossas vidas, na novela das nove, no chá das cinco, na bebedeira que devia ter acontecido no sábado passado mas ficou por alguns (poucos) copos, no cabelo que ficou por cortar porque a verdade é que: não há mesmo dinheiro. Falamos da crise. E depois a cabeça volta seis anos, quando tinha sonhos, quando tinha momentos definidos, estranho é que naquela idade tinha as coisas melhor definidas na minha cabeça, sabia o que queria fazer, os passos que devia seguir. Tinha o meu plano B. O meu plano B que hoje, que estamos quase no fim, me dizem não ser mais o plano B! Falamos da crise. Agora trabalho por objectivos, atingi um, terei que atingir outros ao final de 2012. Dizem-me que 2012 é o fim de tudo. Não sei se acredito muito nisso, mas será sim um ano de mudança. Pelo menos para mim. Tentarei terminar o meu objectivo. Homocisteína. Hospital de Santa Marta. Farmácia Central de Telheiras. Sonho. Teatro. Não necessariamente por esta ordem. Nas notícias ouvimos falar da crise. No café falamos na crise. Nos jantares, falam de desemprego. Falam de crise. Falam de Portugal. O mais Natural seria no meu blog falar de crise. Falar de desemprego. Falar de Portugal. E inevitavelmente acabo por falar. Mas falo também em sonhos. Em esperança. Falo em planos B. Ao sonho de voltar ao plano A. E começo a desesperar por um plano C, D, E. Tento portas abertas, atiro-me de cabeça. Palpita-me o coração. E começo a tentar fazer hoje, o que devia ter feito há seis anos atrás, ou o que devia fazer daqui a oito meses. E a ansiedade cresce. Aquela ansiedade que não podes fazer nada para mudar. E as benzodiazepinas não te servem porque também não estás assim tão mal. Talvez um chá de camomila. Mas da marca branca. Não vá ser muito caro um pacote de chá. Afinal precisas do dinheiro para outras coisas. Porque assim, melhoras a ansiedade. E ficas à fome. Ou não sais de casa. Com os teus amigos. Para falar da crise, do desemprego, de Portugal. Ou então, acabares por esquecer isso e viveres a tua vida. A tua pessoa. Os teus amigos. O teu sonho. O teu plano A.
É triste não ter rumo. Eu não posso dizer que não tenho. Trabalho por objectivos. Tenho um certo rumo. E quando acabar o meu objectivo. E agora? Voltarei ao plano A? Ficarei pelo plano B? Arrisco as outras letras do alfabeto? Ou falarei de desemprego. De Portugal. De crise?
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